Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Vamos aos gambuzinos

Vou recorrer mais uma vez às memórias da minha infância para falar de alguns costumes que faziam parte de uma certa cultura popular nas nossas vilas e aldeias.

Na minha terra, que até ao fim da década de 60 do século passado teve bastante juventude, houve sempre muitos aprendizes de variadas profissões, além dos muitos que se dedicavam à agricultura. Havia os aprendizes de barbeiro e alfaiate, os de carpinteiro, os de pedreiro, os de sapateiro,... Todos eles tinham os seus rituais, as suas praxes, as suas partidas.

Sapateiros havia, pelo menos, uma meia dúzia, espalhados pela vila.

O aprendiz novato, nos primeiros dias de aprendizagem, tinha sempre um ritual  iniciação a cumprir. De nada valia saber o que ia acontecer quando o mestre (sapateiro) lhe dizia para ir levar ou pedir a pedra de afiar as sovelas ao tio Albano (era um sapateiro que trabalhava a uns bons 700 metros de distância). A "pedra" era metida num saco e colocada às costas do aprendiz que ele levava de um sapateiro para o outro. E pesava uns bons quilos. O "desgraçado" até ia ajoujado debaixo do saco. Por vezes, chegava à sua oficina e recebia outra ordem: afinal de contas eu já não preciso dela; tens de ir à Nave, que o tio João é que precisa dela. E eram mais 600 ou 700 metros debaixo do saco. Este ritual era uma espécie de baptismo para os aprendizes de sapateiro.

Todas as profissões tinham a sua iniciação.

Para os aprendizes de agricultores, além dos trabalhos específicos ligados à actividade, havia um ritual que era uma espécie de integração na comunidade: a caça aos gambuzinos.

Estes rituais organizavam-se normalmente durante a época das sementeiras de Outono/Inverno, as sementeiras dos cereais, trigo, cevada, aveia, centeio. Havia casas agrícolas que mantinham grupos a fazer a sementeira com mais de duas dezenas de trabalhadores. Estes ranchos permaneciam durante a semana no local de trabalho, onde pernoitavam. Depois da ceia e antes de ir dormir, porque no dia seguinte era preciso levantar cedo, conversava-se, contavam-se histórias, jogava-se às cartas, pregavam-se partidas,... Era aqui que entrava a caça aos gambuzinos.

 

 

(Retirado de cebices.com)

Os jovens que faziam a lavoura pela primeira vez eram as "vítimas". Caçar gambuzinos, que nunca ninguém tinha visto, exigia um grupo batedor que, com paus, latas,e outros objectos fazia barulho para obrigar os "bichos" a fugir. Entretanto, o "baptizado" era colocado com um saco aberto junto de uma azinheira ou uma parede à espera que fossem lá ter. Não é preciso ter muita imaginação para se adivinhar o que acontecia. O grupo batedor, já combinado, regressava ao acampamento depois de algum barulho inicial e o "iniciado" ainda hoje lá estaria com o saco aberto à espera, se não tivesse alguma esperteza. Claro que a "caça" acabava com o regresso da "vítima" ao acampamento, onde era recebido com uma enorme risada e as histórias dos anos anteriores vividas por cada um dos participantes. Havia sempre as histórias paralelas daqueles que no negrume da noite se perdiam, metiam os pés numa cova e caíam num charco,...

Mas, faz parte do inventário das histórias recolhidas sobre a caça aos gambuzinos, a sorte impossível do portador do saco, que numa noite bem escura e fria regressou ao acampamento com um gambuzino: uma bela lebre, que acordada pelo barulho dos batedores foi ter à boca do saco que se encontrava junto ao tronco da azinheira. Quando todos se preparavam para celebrar ruidosamente o seu regresso, abriu o saco e sacou o "bicho" e ninguém teve coragem de abrir a boca. Daquela vez os gambuzinos tinham pregado a partida aos "caçadores".  

Num tempo e em locais onde as notícias chegavam quando chegavam, a divulgação do conhecimento era muito de carácter oral. Apareciam os divulgadores de adivinhas, os contadores de anedotas, os resolvadores de problemas, que tinham muitas vezes um truque ou exigiam um raciocínio apurado. Estes problemas eram heranças orais dos nossos bisavós, que, por sua vez, os tinham herdado dos seus avós.

Um dos problemas mais comum era a divisão de um líquido em partes iguais tendo 3 medidas diferentes e dizia o seguinte:

 

"Dois amigos receberam como oferta uma vasilha com 8 litros de azeite (era uma zona de grande produção e de bom azeite) para dividir igualmente pelos dois. Não tinham medidas adequadas para fazer a divisão. Tinham apenas duas vasilhas de 3 e 5 litros. Como deviam proceder para levarem para casa metade do azeite cada um?"

 

Este tipo de problemas era comum. Para obter a solução são necessárias algumas operações. É esse o desafio que propomos aos leitores, indicar as operações necessárias para cada um ficar com metade do azeite.

 

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publicado por Frantuco às 23:40
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