Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Cereais, legumes, medidas e ... Vida

A minha avó materna nasceu no fim do século XIX. Aliás, todos os meus avós nasceram no século XIX. Viu “morrer” a monarquia, contava histórias das invasões francesas, que encantavam os seus netos e que tinha recebido como herança dos seus avós e onde o povo era o herói. Viveu os horrores da guerra civil de Espanha e como a generosidade era uma das qualidades que a caracterizava matou a fome a muitos espanhóis que atravessavam o rio Erges para o lado português, procurando e onde sabiam encontrar guarida e algum conforto para o estômago – nem que fosse apenas um prato de feijão cozido com azeite. Era a generosidade dos que tinham pouco, mas que estavam sempre disponíveis para partilhar o pouco com aqueles que ainda tinham menos. Viviam da agricultura, que naquelas bandas e naqueles tempos (ainda hoje) não havia fábricas. Mas havia lobos, de quatro patas e de duas. O seu saber, a sua cultura, a sua linguagem reflectia a sua actividade e a época, projectando-se no futuro, recusando, por vezes, as inovações que não cumpriam, não aceitavam porque não compreendiam.
A minha avó, se hoje fosse viva, teria 113 anos.
A sua cultura, a sua fala estavam impregnadas dos termos antigos que foram adaptados aos tempos que corriam. Relembrando esses dizeres reconheço termos como quartilho, arrátel, arroba, moio, alqueire, quarta, celamim, fanega,… Também se notava, por vezes, a influência espanhola em alguns termos como jaqueta, corcho,…
Recorrer a estas memórias levou-me a procurar encontrar as razões do uso de nomes de  medidas e pesos com centenas de anos e que tinham sido substituídos por outros. Os hábitos enraizados levaram as pessoas a adoptar os novos pesos e medidas, mas mantendo a terminologia antiga fazendo a aproximação dos valores.
Um arrátel era uma medida de peso que correspondia a 459 gramas, que se transformou, pelo menos para os contemporâneos dos meus avós em meio quilograma – 500 gramas. Comprava-se na loja (mercearia) meio arrátel (250 g) de café, um arrátel de carne (500 g) no talho. As batatas para semear compravam-se à arroba que eram 15 Kg pelo sistema novo, mas que correspondiam a 32 arráteis, ou seja, 14,688Kg.
E que dizer de um alqueire? Os alqueires mediam-se em litros, mas quantos? Em muitas regiões referem-se alqueires de 14 litros. Para os meus avós e também para os meus pais um alqueire de cereal valia 16 litros. Quando se media o cereal (trigo, cevada, aveia, centeio, milho,…) os alqueires formavam os moios ( um moio valia 60 alqueires).
Naquele tempo, na minha terra não havia padarias. O pão era feito em casa e cozido nos fornos, que, por sinal eram mantidos pelos lavradores.
A farinha para fazer o pão era de trigo que era moído nas “fábricas” (era assim que eram conhecidas) . O trigo era medido às fanegas (4 alqueires) e meias fanegas.
O pão era estaladiço, com uma cor loira do calor do forno que parecia ter sido transportada da seara.
Uma cozedura durava, pelo menos, uma semana e mesmo duro era saboroso o pão.
Os legumes secos como o feijão pequeno, o grão de bico ou o feijão manteiga e o  catarino eram medidos aos alqueires, mas também às quartas (4 litros) e aos celamins (2 litros – o valor real), embora o celamim fosse uma medida antiga para cereais que equivalia em certos casos a 1/16 do alqueire.
Para medir estes legumes eram usadas medidas de madeira castanha, tendo o litro a forma de um cubo com um dm de aresta, evidentemente no interior.


(imagem retirada de www.if-nespereira.com/balanças.html)


Vamos fazer um pequeno desafio, que também o foi para os fabricantes de medidas de madeira:


- Imaginem que vos pediam para fazer uma medida cuja altura era a mesma da medida de um litro e o fundo era um quadrado cujo lado era o dobro do da medida de um litro. Qual era a sua capacidade? Era um celamim? Era maior ou menor? Mantendo a altura do litro qual deveria ser a medida do lado do fundo do celamim?

- Como sabem o celamim tinha o dobro da capacidade do litro. Será que as suas medidas deviam ter o dobro do comprimento? Que relação havia entre a capacidade da medida com o dobro das dimensões e o celamim? Ou seria que as medidas reais eram outras?


Procurem encontrar as respostas a estas questões. É esse o desafio que vos propomos. Ficamos à espera das vossas respostas, comentários e sugestões.


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publicado por Frantuco às 09:56
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